Enigmas do URSS: veteranos de Valaam

Dia-da-vitoria-na-russiaDia da Vitória é uma data muito significativa para os povos da ex-União Soviética. Em quase toda família há alguém que participou da Segunda Guerra Mundial. Temos que lembrar também aqueles que trabalhavam duro na área de retaguarda para produzir pão e armamento. E precisamos também homenagear outros, aqueles desconhecidos, que sumiram do mapa da ex-União de um dia para outro…

Os estrangeiros que curtem histórias da guerra visitam museus militares na Rússia, tiram centenas de fotos das Paradas Militares ou demonstrações de aviação parecem que nunca percebem um pequeno detalhe que fica escondido atrás das gloriosas apresentações. Imagine uma guerra que durou tantos anos e hoje em dia entre os veteranos soviéticos (não são somente russos, porque a ex-União era composta de 15 países) não podemos ver muitos deficientes físicos. Claro, que sobrou muito pouco desde lá, mas depois de assistir a filmes, que devem representar a vida real daquela época, assistir a documentários, tirar fotos dos veteranos na Praça no Dia da Vitória não surge uma pergunta: como eles conseguiram ficar, digamos, inteiros depois de tantos tiros e explosões? Será que os soldados soviéticos tinham poder de super-herói como o descrevem? Sim, o povo soviético sempre viu esses soldados dessa maneira, esculpia posturas dos lutadores, frequentemente com uma criança no colo, e assim passava as imagens da sua grande história para mundo inteiro. Mas…

Só depois que a União deixou de existir, aos poucos foram abertos os arquivos segredos e os fatos da realidade na maioria das vezes são inacreditáveis. Sim, depois da guerra muitos soldados ficaram com sequelas permanentes e outros muitos com alguma deficiência física, sem braços, pernas, olhos, e até aqueles que perderam todos os membros e foram chamados de samavár (самовар), que lembra um tipo de chaleira russa. Seus camaradas os carregavam nos carrinhos de madeira porque um amigo no campo de batalha sempre se torna um eterno irmão. Tinha gente com contusão, com problemas mentais. A maioria deles já não sabiam como viver sem guerra, o que fazer na vida sem matar, o senso de perigo continuava a existir nas suas cabeças. Aqueles que tinham famílias recebiam ajuda. Mas muitos soldados sofreram amnésia e nem sequer se lembravam de para onde ir. Muitos deles perderam todos seus familiares. E muitos deles, mesmo que tinham para onde voltar, não queriam assustar seus entes com seu estado físico e preferiam viver pelas ruas.

Enquanto o governo soviético proclamava sobre heroísmo dos guerreiros, os veteranos sem braços ou pernas, mas com peitos cobertos de medalhas, bebiam vodka nos botecos, tocavam harmônica ou violão e cantavam sobre passado, debochavam e pediam esmola nas entradas dos mercadinhos e trens. Esse comportamento estragava aquela imagem que o governo soviético gostaria de passar para o mundo. Então, em um dia foi decidido “limpar a sociedade dessa vergonha”.

Ilha Valaam onde foi localizado um dos externatos para veteranos

Ilha Valaam onde foi localizado um dos externatos para veteranos

Em 1949, antes da comemoração do aniversário de 70 anos do Stalin, realizou-se nas grandes cidades uma “limpeza” de veteranos abandonados. Uma parte foi executada e outra levada para cantos distantes da Sibéria, estepes do Cazaquistão e ilhas de onde não tem como voltar para contar a verdade.

Até 1984 os veteranos com deficiência foram levados para um externato na ilha de Valaam (остров Валаам), que fica na parte norte do Lago Ladoga (Ладожско озеро), nas construções de um antigo mosteiro. Por que numa ilha e não no continente? Por que escondê-los? Por que tirar seus passaportes e bilhetes de militar?

Na primeira onda, os grupos especiais de polícia e de segurança estatal (госбезопасность) pegaram à força 500 heróis deficientes e levaram para essa ilha. Na prática eles eram como prisioneiros, pois seus documentos foram retirados, cada um ganhou um número e não tinha direito de sair da ilha. Devido a suas condições físicas, eles nem tinham como fugir. Retiraram-

Memorial para Soldado Desconhecido no Estado de Tula

Memorial para Soldado Desconhecido no Estado de Tula

nos da vida na miséria, mas uma vida livre. No externato, eles praticamente não tinham comida, quase ninguém cuidava deles e somente os camaradas ajudavam a trocar a roupa de cama daqueles que não andavam, muitas janelas estavam sem vidro e a eletricidade foi instalada só depois de alguns anos que o externato passou a existir. Muita gente morria de depressão, de doenças, quem desistia acabava por suicidar-se. Pois até o prisioneiro ficava a esperar por uma data de saída para a liberdade. Lá, ninguém tinha data para esperança.

Já depois da época soviética, os monges colocaram cruzes nas suas sepulturas, onde antes havia somente placas com números, na maioria das vezes já perdidas. As sepulturas se cobriam com grama, então o espaço poderia ser usado para o próximo enterrado.

De um dia para outro a imagem de um soldado forte e “inteiro” se limpou, o povo admirava seu superpoder, não dava para escutar barulho das muletas e carrinhos de madeira porque não existe soldado soviético destruído. Somente aqueles que foram amparados por seus familiares conseguiram se salvar. Pela lei, foi proibido pedir esmola na rua para qualquer um. Aquele que violasse lei poderia ser levado pela polícia, espancado, jogado para fora da cidade ou, ainda, algo bem pior.

Em 1974, o artista Gennady Dobrov conseguiu obter autorização para visitar o externato e fez uma galeria de quadros dos habitantes da ilha de Valaam.

Alexander Podosenov aos 17 anos foi para a frente como voluntário. Na Karelia, ele foi ferido na cabeça por uma bala. Viveu todos os anos pós-guerra na ilha de Valaam, paralisado, sentado nas almofadas.

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Figura do ex-soldado de infantaria Alexander Ambarova, que defendeu Leningrado. Duas vezes, ele foi enterrado vivo durante um bombardeio feroz. Dificilmente, esperava-se vê-lo vivo, os camaradas conseguiram cavar até tirar o guerreiro. Depois que recebeu tratamento médico, ele foi para a batalha novamente. Seus dias terminaram exilado como de um esquecido vivo na ilha de Valaam.

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O guerreiro de três guerras: russo-japonês (1904-1905), Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Quando o artista pintou Michael Kazankova, ele havia acabado de completar 90 anos de idade. Cavaleiro de duas Cruzes de George da Primeira Guerra Mundial, o soldado terminou sua vida heroica na ilha de Valaam.

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Ninguém sabia nada sobre a vida dessa pessoa. Como resultado das feridas graves, perdeu seus membros, fala e audição. A guerra deixou-lhe apenas capaz de ver. É milagre, mas muitos anos depois, graças a este retrato, o filho dele consegui encontrar a sepultura dele e instalar um monumento com inscrição e foto.

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A situação mais grave era a desses “samavár” sem membros. Eles não conseguiam fazer nada sozinhos e eles morreram como primeiros. O mosteiro tem um grande pomar de maçã. Ele apareceu nas rochas de Valaam porque durante décadas, os peregrinos traziam a maior quantidade de terra possível do continente. Este jardim foi o único entretenimento para os “samavár”, o lugar dos seus “passeios”. Os camaradas os traziam para cá de carrinhos de madeira e penduravam em sacos nos galhos das árvores. Então, eles ficavam pendurados aqui o dia todo conversando entre si, chorando e rindo.

Cego e aleijado por causa da guerra, Ivan Zabara mostra ao pintor a medalha “Pela Defesa de Stalingrado.”

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Então, nós estamos falando de 100-200 mil soldados soviéticos, que na verdade foram condenados a viver nas duras condições de prisioneiros apenas porque durante batalha o inimigo não os matou, mas “apenas” os aleijou.

Desde meados dos anos sessenta, foram permitidas viajem turísticas ao arquipélago com acompanhamento do guia. Mostrar este “lar de inválidos” foi estritamente proibido, quem o fizesse poderiam ser demitidos de seus empregos. Ainda assim, alguém conseguia entrar lá. Geralmente, sozinhos ou levados por duas ou três pessoas para não chamar a atenção. Às vezes, o tabu era quebrado nas páginas dos livros. Uma delas é “Caderno de Valaam” (Валаамская тетрадь) do Evgeny Kuznetsov que trabalhava como guia turístico na ilha. O famoso escritor soviético Yury Nagibin, ele próprio era ex-soldado, escreveu uma série de histórias sobre a Valaam com nome “Ilha de rebeldes” (Бунташный остров).

Quem já entende idioma russo pode assistir um documentário curto.

Por isso, todos os prisioneiros que sofreram na Alemanha não voltaram para sua terra, não conseguiram abraçar seus familiares. Todos eles foram considerados inimigos do povo soviético porque deixaram de ser capturados. Muitos deles chegaram ao Brasil, mas até agora falam que têm medo de visitar Rússia enquanto a estrela vermelha está no pico do Kremlin. Triste…

Monumento para veteranos da Segunda Guerra Mundial na ilha Valaam

Monumento para veteranos da Segunda Guerra Mundial na ilha Valaam

 

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Snizhana Maznova
Snizhana Maznova

Estou no Brasil há mais de seis anos e sinceramente posso dizer que adoro esse país com sua cultura tão rica e povo tão simpático. Meu pai é russo e minha mãe ucraniana com raízes da Polônia e Grécia. Até terminar época soviética vivi viajando entre Rússia e Ucrânia e considero os dois países como minha pátria.Além ministrar cursos de idiomas, trabalho como tradutora de russo e ucraniano. Atuo também como intérprete em reuniões entre brasileiros e pessoas da Rússia e Ucrânia, na área turística e viagens de negócio, e assistência para estrangeiros na abertura de empresa no Brasil e pesquisa no mercado etc.

  • Fiquei com lágrimas nos olhos ao saber deste lado obscuro e sombrio da história da Rússia. Revoltante. Vergonhoso. Estou sem palavras. Apenas sinto dor por todos estes. Que desgraça é a guerra.

  • Maurício Mmp

    Que tragédia isso. Crueldade sem limites! Muito chocado.

  • Genaldo Souto

    Poxa vida Snizhana ninguém fala sobre ísso obrigado por compartilhar conosco está materia!

  • Felipe Porto

    Estive no arquipélago em 1994 e realmente, não se fala deste “lado” da história.
    O local, entretanto, é muito bonito, de natureza exuberante e belas paisagens naturais, além das igrejas e mosteiros inteiramente de madeira.

 
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