Ideologia da escola soviética

Pode ser que o artigo de hoje gere muita polêmica e algumas discussões, mas acho que o lado mais positivo da época soviética era que o governo entendia que a conscientização da sociedade começa não a partir da propaganda na mídia, mas a partir da infância, e por isso a educação correta se iniciava a partir do berço.

Infância… Cada um tem sua própria. Mas ainda existem pontos comuns que unem várias gerações dos países da ex-união soviética em um único conceito: uma pessoa soviética.

Independente da nacionalidade, as crianças soviéticas foram criadas com os mesmos valores. As crianças a partir do jardim de infância foram ensinadas a distinguir entre o bem e o mal, com os exemplos de figuras históricas famosas: heróis da guerra e do trabalho, os melhores representantes de várias profissões. As crianças também recebiam exemplos negativos elaborados pelos psicólogos e pedagogos e apresentados tão adequadamente que despertavam uma aversão nas cabecinhas dos pequenos cidadãos da URSS.

O fato de que uma pessoa é um ser coletivo era ensinado para crianças soviéticas quase desde o primeiro dia. Os resultados desta educação tiveram dois lados da moeda. Parecia que as creches eram uma ferramenta eficaz para implementar a doutrina designada pelo estado e educar a geração mais nova no espírito do comunismo, onde os interesses públicos sempre estiveram em primeiro lugar. Além disso, a rotina do dia-a-dia era rígida com o objetivo de preparar as crianças para a disciplina da escola. Hoje em dia, todos que tiveram infância soviética sabem sobreviver em quaisquer condições, trabalhar sob pressão psicológica sem se estressar e resolver as tarefas через не могу (tchyéres nye magú – ultrapassando a barreira do “eu não consigo”).

Mas, por outro lado da moeda, as crianças foram ensinadas a ser “como todos”, não podiam se destacar, não podiam ser o que queriam, somente o que lhes era dito. Desde pequeno o cidadão soviético aprendia que ele não era um indivíduo, é sim, parte do povo soviético.

As habilidades do “futuro construtor do comunismo” recebidas no jardim de infância continuavam a se desenvolver com sucesso na escola. Praticamente todas as aulas eram imbuídas de ideologia. Os alunos, já na primeira série, aprendiam a introdução para o seu primeiro livro Букварь (Bukváry onde a raiz é буква – letra): “Você aprenderá a ler e escrever e pela primeira vez você escreverá as palavras mais queridas para todos: mãe, Pátria, Lenin …”. As crianças modernas nem sequer podem imaginar que a palavra “mãe” tenha sido colocada ao lado do líder revolucionário. Era a norma em que as crianças eram ensinadas a acreditar.

Em 1923-1924 surgiu o termo октябрята (aktyebryáta onde a raiz é октябрь – outubro) em homenagem de revolução vermelha que aconteceu em outubro de 1917. Os grupos de outubrinhos foram criados nas primeiras séries da escola. Na cerimonia as crianças recebiam um broche em forma de estrela vermelha de cinco pontas com um retrato de Lenin na infância. O símbolo do grupo era a bandeira vermelha. O grupo (em algumas escolas – a esquadra) consistia de várias divisões chamadas de estrelinhas, cada uma das quais geralmente incluía cinco crianças porque a estrela era de cinco pontas. Cada um tinha obrigações próprias: florista, enfermeiro, bibliotecário, polit-informador (политинформатор – preparava notícias sobre situação política para classe), esportista. Também sempre havia um comandante escolhido. A atividade dos outubrinhos eram organizadas pelos professores e aconteciam principalmente na forma de jogos interativos para ensinar coragem e esperteza, sempre falar só a verdade, respeitar os adultos, ajudar e cuidar dos idosos, cuidar dos animais e do meio ambiente, proteger os mais fracos, amar a escola e estudar com disciplina, fazendo tudo de maneira unida.

A partir de 10 anos de idade os outubrinhos se tornavam пионеры (pianyérê – pioneiros). Mas não todos juntos. Primeiro eram honrados aqueles que estudaram melhor que todos. Na cerimônia nós prestávamos um juramento perante os товарищи (tavárich-tchi – camaradas) e prometiamos “amar nossa Pátria, viver, estudar e lutar, como legou o grande Lênin, como ensina o Partido Comunista”. Nós gritávamos: “Sempre pronto!”, nem sequer pensando o que exatamente significava de “estar pronto”, mas naquele momento realmente nos sentíamos prontos para tudo. Usávamos lenços vermelhos no pescoço e todos tinham que aprender o amarrar corretamente. Os mais conscientes o passavam com ferro quase todos os dias e двоечники (de raiz два que significa 2, ou seja, aqueles que tinham notas mais baixas) o usavam amassados e sempre levavam bronca muito bruta na frente de todos. Os pioneiros tinham reuniões. Seu dever era ajudar os alunos atrasados, cuidar de veteranos e outros idosos, coletar material reciclável, tal como papel e sucata. Na escola, como na cidade inteira, sempre organizavam субботники (subótniki de raiz суббота – sábado) que eram dias de trabalho coletivo e não renumerado para limpar a escola e o jardim ao redor. Também durante o ano letivo havia cronograma de plantão para cuidar do comportamento na escola durante os intervalos, limpeza das salas de aula e do refeitório. Tínhamos que aprender a usar quase todas as ferramentas de marcenaria, costura etc. Os pioneiros nas escolas do interior ajudavam na colheita da safra para колхоз (kalhóz – fazendas de propriedade coletiva).

O que eu mais gostava e desejaria muito para meus filhos agora era пионерский лагерь (pianyérskiy lágyery – acampamento de pioneiros). Nos acampamentos de pioneiros, as crianças de 7 a 15 anos eram organizadas em esquadras temporárias para várias atividades que começavam às 7h00 com a toque da corneta, arrumação da cama e ginástica coletiva, continuando com várias oficinas e até um jogo de atividade militar Зарница” (zarnítsa – relâmpago). Alguns acampamentos de pioneiros hospedavam as crianças durante um ano inteiro. Essa experiência foi muito importante para que a criança se preparasse a ser adulta e se virar sozinha na vida cotidiana porque não tinha tias que iriam limpar os quartos ou refeitórios. Tinham somente líderes de esquadras que eram jovens de 16-20 anos, funcionários que cuidavam da ordem e preparavam a rotina de atividades, chefes da cozinha e faxineiras da cozinha e prédio administrativo. No campo onde moravam as crianças era organizado um gráfico de plantão para arrumar os quartos, refeitório e áreas ao redor. Os pais podiam visitar seus filhos nos fins da semana, trazer trocas de roupa e guloseimas, se assustar um pouco vendo joelhos machucados e escutar “histórias incríveis”. De um lado era um exército infantil, mas era divertido e as crianças aprendiam muita coisa de “sobrevivência coletiva”.

Depois dos pioneiros os adolescentes a partir de 14 anos podiam se tornar комсомольцы (kamssamólytsê). Комсомол é a abreviação de Коммунистический союз молодёжи – União da Juventude Comunista. A entrada geralmente era realizada individualmente. Para apresentação de um pedido, tinha que ter uma recomendação de um comunista ou de dois membros do Komsomol com experiência de pelo menos 10 meses. Depois disso, o pedido poderia ser aceito para consideração na organização de Komsomol da escola, ou poderia não ser aceita, se eles não considerassem o candidato como uma pessoa digna. Se o candidato passava com êxito na entrevista, recebia uma carteira do Komsomol, na qual era documentado o pagamento das contribuições. Os estudantes e os alunos pagavam 2 копейки (kopyéyki – fração de rublo). Os que trabalhavam pagavam 1% do salário. No Komsomol podia-se permanecer até 28 anos, mas ser excluidos por negligência, visitação de igreja, por falta de pagamento de taxas de membro, por problemas familiares (brigas, divórcio, alcoolismo etc.). Esta exclusão ameaçava qualquer boa perspectiva e uma carreira no futuro. Um membro expulso do Komsomol não tinha o direito de se filiar ao partido comunista, ter chance de visitar o exterior, e em alguns casos poderia se perder o emprego. Quem não planejava seguir uma careira política ou se tornar um gerente não entrava no Komsomol. Podia pensar até os 28 anos. Cerca de 40% dos jovens não entravam.

A partir de 14 anos na verdade já nem era mais uma criança porque podia entrar na escola técnica e até morar em outra cidade, pois no interior não havia escolas técnicas e o único caminho era trabalhar em uma fazenda coletiva. Outros escoliam estudar até 16 anos e depois entrar direto na faculdade que na maioria das vezes também se localizava em outra cidade. Aliás, antigamente o ingresso na faculdade era permitido somente até os 35 anos… Mas sobre isso vamos falar na próxima vez.

 

 

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Snizhana Maznova
Snizhana Maznova

Estou no Brasil a partir de 2006 e sinceramente posso dizer que adoro esse país com sua cultura tão rica e povo tão simpático. Meu pai é russo e minha mãe ucraniana com raízes da Polônia e Grécia. Até terminar época soviética vivi viajando entre Rússia e Ucrânia e considero os dois países como minha pátria. Além ministrar cursos de idiomas, trabalho como tradutora de russo e ucraniano. Atuo também como intérprete em reuniões entre brasileiros e pessoas da Rússia e Ucrânia, na área turística e viagens de negócio, e assistência para estrangeiros na abertura de empresa no Brasil e pesquisa no mercado etc.

  • Luciano José de Mello

    Eu gostaria de saber se fora a ideologia o que foi desmontado deste sistema, porque a educação na União Soviética,mesmo por capitalistas era considerada boa.

    • Porque 100% da população era alfabetizado. Não estudar considerava-se vergonhoso. Além de matérias tinha muitos cursos e atividades e todos eram gratuitos. Existiam matérias com quais as crianças desde pequenos aprendiam pensar, se expressar, escrever relatos, redações. Treinavam bastante memoria decorando versos e poemas. Mesmo que férias de verão tem 3 meses sempre tinha uma lista de literatura clássica para ler durante férias.

      • Luciano José de Mello

        Infelizmente qualquer pessoa que lê clássicos é considerada esquisita no Brasil. Atualmente estou lendo Rei Lear, clássicos russos ainda não, pelo visto desde o século 19 os russos já eram muito inteligentes.

  • Meio Ambiente

    Estou atrás de um conto do Liev Tolstói no idioma original, porém estou com muita dificuldade pois não conheço nada de russo, utilizando a ajuda do tradutor do google inverti o nome do conto de português para o russo e pesquisei o resultado da tradução no google, encontrei o seguinte link com a pesquisa, http://rvb.ru/tolstoy/01text/vol_2/01text/0006.htm ,
    porém não sei dizer se o texto referente ao link faz jus ao conto original, e se foi originalmente escrito assim

    • Acredito que sim, porque normalmente copiam e colam texto pronto.