🇧🇾 Kliótski, corpo e alma da cozinha belarussa

É curioso pensar no que será que os belarussos comiam antes da invasão europeia do continente que hoje chamamos de América, pois existe um estereótipo (e não é por acaso) de que o ingrediente principal da cozinha belarussa é a batata. Tanto que o povo belarusso ganhou dos vizinhos o apelido de “bulbashí” (“бульбашы”, plural de “bulbásh” – “бульбаш”), que quer dizer “batateiro”.

O prato mais famoso de Belarús, drániki (“дранікі”) – panquecas de batata – já foi descrito anteriormente aqui no blog.

Hoje vou ensinar a vocês como fazer kliótstki (“клёцкі”, plural de “kliótska” – “клёцка”), seguindo a receita original da minha avó Volha.

Avó Volha dando boas vindas com prato de kliótski. Foto: Volha Yermalayeva Franco

Esse prato é típico do dia de Finados (“Дзяды” – “Dziadý”), mas também pode ser preparado para qualquer comemoração ou no dia a dia.

Ingredientes para kliótski:
– batata – 2 kg
– carne ou carne moída (de preferência, suína) – 400 g
– toucinho cru (opcional) – 100 g
– cebola – 1 unidade
– alho – 3-4 dentes
– pimenta do reino a gosto
– sal a gosto
– folha de louro – 3 unidades
– cominho e endro a gosto (opcional)

Você vai precisar também de um pano fino e resistente, preferencialmente de algodão, para espremer a massa. Pode ser um pano de prato limpo, desde que não seja muito felpudo.

Ingredientes para smiatána:
– creme de leite – 1 caixinha (250 ml)
– limão – meia unidade

Como preparar:
As kliótski, que nem gente, se compõem de corpo (“целa” – “tsiéla”) e alma (“душа” – “dushá”). Daí a importância do prato para o dia de Finados, para lembrar que o corpo e a alma nem sempre ficam juntos.
1 – Primeiro precisa-se fazer os corpos. Para isso rale toda a batata com o ralador mais fino possível. Pode ralar metade da cebola junto, para a massa não escurecer muito (em contato com o ar a massa, inicialmente branca, vai ficando marrom ou cinza).
Coloque as porções da massa ralada no pano e torça bem, até sair todo o líquido, deixando-a parecida com massa de farinha de trigo para biscoito.
Não tenha pressa para jogar o líquido fora, porque nele vai ficar sedimentado o amido, que você pode misturar com a massa ou separar e usar depois para fazer mingau, kisiél (“кісель” bebida ou sobremesa eslava) ou qualquer outro prato.
2 – Agora pode colocar uma panela de água para ferver. Adicione o sal, as folhas de louro e alguns grãos de pimenta do reino.
3 – Para o recheio – as “almas” – cortamos fininho a carne (ou usamos a carne moída), o toucinho cru, a cebola e os dentes de alho. Pode adicionar o tempero de sua preferência (sal, cominho, endro ou pimenta do reino).
4 – Pegue um pedaço da massa de batata, faça uma bola e deixe-a chapada. Coloque dentro uma bolinha de recheio e feche com massa, fazendo também uma bola. O tamanho das kliótski pode variar de 3 a 10cm de diâmetro.

Colocando as “almas” nas kliótski. Foto: Paterson Franco

Colocando as “almas” nas kliótski. Foto: Paterson Franco

5 – Assim que estiverem prontas, mergulhe as kliótski com cuidado, dentro da água fervente. Inicialmente elas vão afundar. Depois de começar a boiar, cozinhe por mais cerca de 20 minutos. Não precisa encher a panela de vez, pode cozinhar por partes.

Kliótski na panela. Foto: Paterson Franco

Kliótski na panela. Foto: Paterson Franco

6 – Depois de prontas as kliótski podem ser servidas com ou sem caldo (ele também pode ser reaproveitado para fazer sopa) e com smiatána (“смятана”), creme de leite azedo, popular na cozinha belarussa. No Brasil, para substituir smiatána, eu misturo uma caixa de creme de leite com suco de meio limão.

Kliótski prontas para comer. Foto: Paterson Franco

Kliótski prontas para comer. Foto: Paterson Franco

Mais variações:
1 – Em algumas regiões de Belarús, como no norte, fazem kliótski especiais, chamadas de “saróka” (“сарока”, o que literalmente significa pega-rabuda, uma espécie de pássaro local). Ela tem um formato mais esprimido e dentro tem um pedaço de toucinho e, por vezes, numa delas, uma moeda (é uma tradição antiga, pois desde 1991 o país não tem moedas de metal, mas parece que elas vão voltar em 2016), que dá sorte para quem a encontra no seu prato.
2 – Depois de cozidas, as kliótski podem ser fritas, usando óleo ou gordura de pedaços de toucinho.
3 – Existem também kliótski “sem almas”, ou seja, sem recheio. Elas podem ser servidas normalmente ou cozidas no leite.


volhaEste artigo foi escrito por Volha Yermalayeva Franco.
Belarussa. Mora em Salvador. Professora de belarusso, russo, inglês e português para estrangeiros. Co-autora do livro didático de português para falantes de russo “Португальский шутя. 250 бразильских анекдотов” (“Aprenda português brincando. 250 piadas brasileiras”). Cantou na banda folclórica belarussa “Guda”. Ministrou oficina de vytsinanka, arte tradicional belarussa de papel recortado, no Museu de Arte Moderna da Bahia. Formada em Patrimônio Cultural e Turismo pela Universidade Europeia de Ciências Humanas, em Vilnius, Lituânia. Mestranda em Conservação e Restauro pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia. Trabalha com tradução e legendagem de filmes soviéticos, belarussos e russos. Escreve sobre Belarús, sua cultura e patrimônio.

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Andrei Tarasov
Andrei Tarasov

Nasceu em 1989 na cidade de Izhevsk, Rússia. Desde os 17 anos trabalhou no jornal local de sua cidade e aos 19 anos mudou-se para viver em Moscou, e passou 6 anos na televisão trabalhando como repórter e redator. Mora no Rio de Janeiro desde 2014. Ama aviões, gatos, e claro, jornalismo.