Mayakovsky: Um poeta a plenos pulmões

Vladimir Vladimirovitch Mayakovsky O poeta russo Vladimir Mayakovsky (Влади́мир Влади́мирович Маяко́вский, 1893 – 1930) que viveu a revolução bolchevique de 1917 na Rússia, foi um dos grandes poetas de seu tempo. Com versos e composições audazes, iniciou um novo modo de fazer poesia. Escreveu vários poemas para declamação pública, pondo abaixo as tradições literárias da cultura burguesa de seu tempo. Aos poucos, Mayakovsky se iniciava em um novo modo de fazer arte, vinculada ao futuro e as novidades tecnológicas surgidas na sociedade russa.

Nesta época os círculos acadêmicos eram muito comuns entre os russos, os museus e os cafés eram lugares preferidos de debate entre estes. No entanto, não foi este o caminho que o poeta fez. Juntamente com aqueles que desejavam uma nova forma de fazer arte, Mayakovsky abandonou os círculos acadêmicos para ir em direção as praças, ruas e fábricas dos grandes centros urbanos da Rússia Soviética para escrever uma nova poesia que surgia em meio às contraditórias catástrofes de guerras. Clark e Holquist [1], por exemplo, contam que Mayakovsky dormia no assoalho do telégrafo central de Moscou, de modo a estar de prontidão a elaborar cartazes sobre os acontecimentos da revolução.

Já Trotsky, possuía um olhar diferente sobre o poeta.  Dizia que em Mayakovsky existiam reflexos de um gênio [2] e que ele não era em primeiro lugar um revolucionário e em segundo, um poeta. Era antes de tudo, um poeta, que rejeitou as velhas formas do fazer poético, embora não por completo. Além de poeta, foi ao mesmo tempo, sujeito e vítima das transformações sociais, que, junto com o admirável desejo de se fazer uma nova sociedade e cultura, aproximou-se significativamente dos acontecimentos da insurreição.

Após a revolução de outubro de 1917, Mayakovsky e os demais membros do grupo cubo-futurista se entusiasmaram com os acontecimentos políticos da época e tomaram partido favorável a revolução. O ânimo diante dos novos fatos possuía varias razões. Juntamente com as rupturas político-sociais, surgia no horizonte um novo modo de fazer arte. É nesta época que Mayakovsky escreve “Ode a revolução” e “Marcha de esquerda”, poemas declaradamente revolucionários [3].

Em seus poemas, Mayakovsky tem como característica central o inconformismo diante do cotidiano sufocante, muito bem descrito em 1913 no poema Algum dia você poderia[4]?(А вы могли бы?)

Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquas num prato
as maçãs do rosto do oceano.

Nas escamas de um peixe de estanho,
li lábios novos chamando.

E você? Poderia
algum dia
por seu turno tocar um noturno
louco na flauta dos esgotos?

Em seus versos, a metáfora, as imagens, rimas, estrofes e a incansável resistência de não se entregar a vida cotidiana, rotineira, e burocrática, mostra-se como uma constante obsessão do poeta. Foi nesta mesma linha Roman Jacobson interpretou que o suicídio de Mayakovsky já estava posto desde o início de sua poesia. Segundo o lingüista, o poeta preferiu o silêncio ao ser um mero vendedor de versos.

Com a morte de Lênin, Stalin assume o poder e estabelece uma série de regras e normas para a produção artística. Assim como o teórico Bakhtin e outros artistas que foram censurados e acusados de produzir obras subjetivas, Mayakovsky era chamado pelos burocratas Stalinistas de “incompreensível”, pois seus poemas não seguiam as diretrizes oficiais para produção artística. Ou seja, a liberdade poética tanto sonhada pelos artistas com o advento da revolução foi violentamente substituída por manuais burocráticos de conduta que eram impostos goela-abaixo aos artistas, sendo substituída aos poucos pelo realismo socialista. Na esfera política, a oposição comandada por Trotsky sofreu as mesmas conseqüências e cada dia as liberdades antes tanto desejadas, estavam cerceadas.

Mayakovsky preferiu o silêncio ao se entregar a censura oficial. Foi o que fez. Ecolheu deixar a vida em 14 de abril de 1930. Este lutador de palavras, como definiu Trotsky, deixou-nos um legado importante que se tornou inquestionavelmente percussor de um novo futuro, uma nova poesia, brotando a plenos pulmões.

Abaixo, segue o bilhete de suicídio de Mayakovsky,

A todos

De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso.

Mãe, irmãs e companheiros, me desculpem, este não é o melhor método (não recomendo a ninguém) mas não tenho saída.

Lilia, ame-me.

Ao governo: minha família são Lilia, Brik, minha mãe, minhas irmãs e Verônica Vitoldovna Polonskaia.

Caso torne a vida delas suportável, obrigado.

Os poemas inacabados entreguem aos Birk, eles saberão o que fazer.

Como dizem:

caso encerrado,

o  barco do amor partiu-se na rotina.

Acertei as contas com a vida

inútil a lista

de dores,

desgraças

e magoas mútuas,

Felicidade para quem fica.

Vladimir Maiakovski


[1] Katerina Clark e Michael Holquist. Mikhail Bakhtin. p. 61

[2] Leon Trotsky. O suicídio de Maiakovski.

[3]Boris Schnnaiderman. Dossiê Maiakovski. Cronologia de Maiakovski. Disponível em http://www.apropucsp.org.br/revista/rcc01_r10.htm

[4] Vladimir Maiakovski. Poemas. Tradução de Haroldo de Campos. Ed. Tempo Brasileiro, 1967, p. 53.


Marco Aurélio de Passos RodriguesEste artigo foi escrito pelo Marco Aurélio de Passos Rodrigues.
Pedagogo, Filósofo e Mestrando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Seu tema de pesquisa é A relação entre ideologia e linguagem na obra de Mikhail Bakhtin.


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Snizhana Maznova
Snizhana Maznova

Estou no Brasil a partir de 2006 e sinceramente posso dizer que adoro esse país com sua cultura tão rica e povo tão simpático. Meu pai é russo e minha mãe ucraniana com raízes da Polônia e Grécia. Até terminar época soviética vivi viajando entre Rússia e Ucrânia e considero os dois países como minha pátria. Além ministrar cursos de idiomas, trabalho como tradutora de russo e ucraniano. Atuo também como intérprete em reuniões entre brasileiros e pessoas da Rússia e Ucrânia, na área turística e viagens de negócio, e assistência para estrangeiros na abertura de empresa no Brasil e pesquisa no mercado etc.

  • Adorei o post!
    Adriana

  • Maiakovski, não é uma pessoal é uma multidão que pulsa, em mim Maiakovski é a melhor tradução do futurismo / porém, não como algo que esta por vir, e sim, já estabelecido.
    Grato Maiakovski.

  • João Luiz

    pô deveria colocar algumas personalidades mais interessantes como a sharapova,a isinbayeva,o fedor emilianenko,o mikhail prokhorov,o abramovich alguns mais atuais!srsrrsrs brincadeira pessoal não vão me criticar por isso eu ate gosto de poesia,mais poesia em musica,como luan santana rsrsrssr

    • Olá João. Obrigada pelo conselho. Se você tem interesse por personagens determinadas da Rússia pode escrever aqui também 🙂 Com prazer vou colocar seu artigo com seu nome.

  • Luiz G. Souza

    Ótimo artigo! O Marco Aurélio só esqueceu de uma coisa: O suicídio, bem como o bilhete presumivelmente deixado por Maiakóvski, não são fatos unanimemente aceitos pela comunidade internacional. Existe a versão, amplamente divulgada, que Maiakóvski voi vítima da própria Revolução, sob o tacão de Stalin e Molotov que queriam implantar uma literatura simplista controlada pelo Estado. Daí a trágica piada bolchevique, segundo a qual Maiakóvski foi “barbaramente suicidado” pelo regime.

  • Boa crítica Luiz. Sim, eu sei que este fato ainda não traz unanimidade na comunidade que estuda Maiakóvski.
    Seu apontamento traz boas reflexões e abre o leque para outra possibilidade de pensar a trágica piada bolchevique.