Mikhail Mikhailovich Bakhtin

Mikhail Mikhailovich Bakhtin: um homem fora dos trilhos

Filósofo Russo Mikhail Mikhailovich BakhtinQuando se fala em literatura e filosofia na Rússia, muitos nomes são conhecidos em literatura, no entanto, são poucos os filósofos que conhecemos na Rússia, mas este pais possui um pensamento muito peculiar no que se concerne a filosofia e Mikhail Mikhailovich Bakhtin (Михаил Михайлович Бахтин) foi um grande exemplo de filósofo (embora muitos pesquisadores não concordem) do século XX que ultrapassou as fronteiras com seus escritos e que exerceu intensa atividade em seu contexto russo pós-revolucionário.

Nascido em 1895 na cidade de Oriol, provindo de uma família da velha nobreza arruinada, iniciou seus estudos na Universidade de Odessa e depois na Universidade de São Petersburgo, onde formou-se em História e Filologia em 1918. Em 1920 instalou-se na cidade de Vitebsk, onde ocupou diversos cargos. Nesta mesma cidade Bakhtin iniciou sua vida intelectual. Participou de um grupo de estudos que mais tarde ficou conhecido como O círculo de Bakhtin, que foi uma escola do pensamento russo que iniciou suas atividades na cidade de Nevel e tinha como objetivo pensar uma nova filosofia, arte e literatura. Motivados pelo advento da Revolução, o grupo contou com inúmeras pessoas de diversas áreas do conhecimento, entre elas, figuras ilustres, como artista Marc Chagall, que fundou uma academia de artes e Kazímir Malévich que dirigiu a mesma academia. O que estas pessoas tinham em comum? Pensar uma nova forma de conhecimento.

Marxismo e filosofia da linguagemFigura enigmática, sua obra é diversa, repleta de interpretações e obscuridades quando o assunto envolve a autoria de três textos. Nos anos 20, os membros do círculo de Bakhtin publicaram os seguintes livros: Freudismo: um esboço crítico, Marxismo e filosofia da linguagem de autoria de Valentin Nikolaevich Voloshinov e O método formal nos estudos literários, de Pavel Nikolaevich Medvedev.

Após cinqüenta anos, em 1970, iniciou-se uma polêmica acerca dos mesmos textos. Simon Dentith conta que lingüista russo Vyacheslav Ivanov atribuiu, Freudismo: um esboço crítico, Marxismo e filosofia da linguagem e O método formal nos estudos literários, a Bakhtin. As provas sobre a autoria dos textos até hoje são inexistentes. O que se conta é que Bakhtin teria se recusado a realizar as modificações impostas pelo editor e preferiu não publicar a ter que mudar as partes propostas pelo editor. Voloshinov e Medevedev se colocaram a disposição para realizar as modificações. Mas esta afirmação também não possível assegurá-la. Devido à falta de ausência de documentos que comprovem estas afirmações, iniciou-se um debate sem fim em torno da legitimidade e autoria das obras. Questões que permanecem sem solução até os dias de hoje. Apesar das inúmeras disputas.

Em sua longa vida sob o poder soviético, Bakhtin trabalhou praticamente a vida toda sob condições extremamente difíceis e viveu a margem do contexto intelectual que o envolvia, isto porque seus pontos de vista eram considerados bastante heterodoxos e contradiziam a linha oficial do partido, principalmente no que se concerne a questões estéticas e literárias.  Por esta e outras razões, sofreu as conseqüências que o período Stalinista lhe gerou: censura, prisão e exílio.

Problemas da Poetica de DostoievskiEm 1929, Bakhtin publica o livro Problemas da poética de Dostoievski e pouco tempo depois, no mesmo ano, foi obrigado a exilar-se no Cazaquistão, acusado de atividades ilegais ligadas à igreja Ortodoxa. Após este acontecimento, exila-se novamente, desta vez em Saransk (capital da Mordovia) em 1937. No mesmo ano defende a Tese de doutorado no Instituto Gorki nominada de Cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rabelais, mas o título de doutor não lhe é concedido pela banca examinadora, que, solicitaram a Bakhtin fazer uma série de mudanças, pois, segundo um dos analistas, havia muitos subjetivismos contidos no texto. Bakhtin ignorou completamente as ordens da banca e o titulo foi-lhe concedido depois de muita luta, somente 20 anos depois!

Pouco tempo depois retorna a Saransk como professor e acaba sendo redescoberto por alguns estudantes de Moscou logo após a morte de Joseph Stalin. Estes estudantes, muitos, admiradores de suas obras, descobrem vários estudos do autor ainda inéditos, que pouco tempo depois ganharam uma incrível notoriedade no âmbito acadêmico russo atingindo grande prestígio e respeito de intelectuais da época.

Em 1975 Bakhtin falece e alguns de seus textos, os primeiros, datados dos anos 20, permaneceram inéditos. Pouco tempo depois vários de seus trabalhos foram publicados e reunidos postumamente na coletânea Estética da criação verbal (Эстетика словесново твортчества).

Apesar de ter sido um filósofo fora dos trilhos soviéticos, Bakhtin é um dos autores mais estudados no Brasil e no mundo. Seus estudos obtiveram uma delonga de décadas de espera para o público. Fruto de inúmeras censuras que o autor sofreu no regime Stalinista, Bakhtin escreveu sobre vários temas: ética, moral, estética e linguagem. Em suas obras podemos notar uma característica que é marca central ao longo de seu desenvolvimento intelectual, uma diversidade de idéias tão ricas que não podem ser facilmente abarcadas em termos de uma preocupação mais genérica e o combate incessante ao pensamento dogmático.

Bakhtin deixou-nos um importante legado, cuja atualidade é espantosa e ainda continua a ser redescoberta. Para os que se interessam em literatura e filosofia, eis a dica de um autor que viveu fora dos trilhos de seu tempo, cujas reflexões em suas obras mostram uma atualidade espantosa, e nos ajuda a compreender a dinâmica da sociedade em que vivemos por meio de um mecanismo que muitos se esqueceram de estudar, a linguagem.


Marco Aurélio de Passos RodriguesEste artigo foi escrito pelo Marco Aurélio de Passos Rodrigues.
Pedagogo, Filósofo e Mestrando em Filosofia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Seu tema de pesquisa é A relação entre ideologia e linguagem na obra de Mikhail Bakhtin.


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Snizhana Maznova
Snizhana Maznova

Estou no Brasil a partir de 2006 e sinceramente posso dizer que adoro esse país com sua cultura tão rica e povo tão simpático. Meu pai é russo e minha mãe ucraniana com raízes da Polônia e Grécia. Até terminar época soviética vivi viajando entre Rússia e Ucrânia e considero os dois países como minha pátria. Além ministrar cursos de idiomas, trabalho como tradutora de russo e ucraniano. Atuo também como intérprete em reuniões entre brasileiros e pessoas da Rússia e Ucrânia, na área turística e viagens de negócio, e assistência para estrangeiros na abertura de empresa no Brasil e pesquisa no mercado etc.

  • Senhora Barreto

    Obrigada pela postagem, muito interessante!

  • Joao Marcelo

    Até onde eu sei ele é mais conhecido como linguista.