Noites Brancas, de Fiódor M. Dostoiévski

Encontro, 1970, Ilya Glazunov (papel, carvão, pastel)

Resenha: Noites Brancas, de Fiódor M. Dostoiévski

Nataly Ternero[1]

A literatura russa sempre encantou e atraiu os brasileiros e, nos últimos tempos, vem se popularizando ainda mais devido ao relançamento de várias obras que, pela primeira vez, foram traduzidas direto do russo para o português.

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski (no russo: Фёдор Михáйлович Достоéвский) é um dos escritores clássicos do século XIX mais populares no Brasil, sempre citado por suas obras Crime e Castigo (Преступлéние и наказáние) e Os irmãos Karamázov (Брáтья Карамáзовы). Estas obras, de genialidade inegável e profunda análise psicológica do ser humano, podem assustar o leitor ainda não familiarizado com a escrita do autor, tanto por suas temáticas quanto por seu tamanho.

Assim, Noites Brancas (Белые ночи), publicada em 1848, mostra-se como boa porta de entrada à obra de Dostoiévski. É o livro, na obra do autor, que mais se aproxima da escola romântica e tem, aproximadamente, 80 páginas. Noites Brancas encontra-se na primeira fase do escritor, antes de sua prisão de exílio na Sibéria, em 1849, sendo mais “leve” e fluído, e tendo como principal temática os sonhadores.

O livro, que recebe o subtítulo de “Romance sentimental (das recordações de um sonhador)” (СЕНТИМЕНТАЛЬНЫЙ РОМАН – Из воспоминаний мечтателя), é narrado por um jovem de 26 anos que não se identifica, e que vaga pelas ruas de São Petersburgo, angustiado porque todos os habitantes estão deixando o caos da cidade para abrigarem-se nas datchas, as casas de veraneio. Voltando para a casa, sob a ponte do Rio Nievá, ele encontra uma moça de 17 anos, Nastienka, chorando sozinha. Ele se aproxima e, desse modo, começam a conversar e a abrirem-se francamente um para o outro, estabelecendo uma amizade que durará quatro noites.

A cada noite, Nastiénka e o narrador trocam histórias, tristezas e alegrias com a vista do rio Nievá, durante as famosas noites brancas, fenômeno do hemisfério norte no qual o sol quase não se põe, dando uma aparência etérea e sonhadora à cidade. Nastiénka estabelece apenas uma condição para se abrir a este desconhecido: que ele não se apaixone por ela, porque isso seria extremamente inoportuno. Mas será que o narrador atenderá a esse pedido?

Neste pequeno romance sentimental, Dostoiévski já mostra indícios de sua genialidade e temáticas que seriam melhor trabalhadas nos romances posteriores, como a solidão, o sonho e o desespero, além de mobilizar São Petersburgo à sua particular maneira, usando a cidade como personagem fundamental e influenciadora nas sensações de seus habitantes. Com seu talento incomparável, Dostoiévski nos prende e engana até a derradeira página, deixando seus leitores em êxtase e deleite conforme as noites brancas avançam.

O livro inspirou, ainda, algumas adaptações cinematográficas, como “Le Notti Bianche”, dirigido por Luchino Visconti e lançado em 1957, e “Quatre Nuits d’um Rêveur”, por Robert Bresson, em 1971.

E você, que sensações teve quando leu Noites Brancas pela primeira vez? Se não leu, ficou curioso? Qual é seu livro clássico russo preferido?

 

[1] Graduanda em Letras/Português pela Universidade Federal de Alfenas – MG.

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