5 de setembro – dia do imposto sobre barba

 

“Pedro I corta barbas dos boiardos”, Dmitriy Belyukin, 1985

“Pedro I corta barbas dos boiardos”, Dmitriy Belyukin, 1985

Desde o início de seu governo, o czar Pedro I procurava um caminho de aproximação entre a Rússia feudal e a Europa. Uma das maneiras de alcançar esse propósito era fazer com que aparência dos russos estivesse em conformidade com a dos europeus. Uma transformação drástica começou após o retorno de Pedro, em Moscou depois de sua primeira viagem à Europa. Alias, ele foi primeiro entre várias gerações dos czars russos que fez uma viajem internacional, praticamente, um intercambio, com objetivos políticos e educacionais. Em agosto de 1698, no dia seguinte após chegar do exterior Pedro, na época com 26 anos de idade, durante uma reunião com boiardos (aristocracia russa) mandou trazer uma tesoura e com as próprias mãos publicamente cortou as barbas de alguns boiardos de famílias nobres.
Essa escapada absurda do czar deixou todos perplexos. Sem hesitar, Pedro repetidas vezes cumpriu essa execução tirando dos homens suas barbas, um atributo visto como indispensável para um homem. Na Rússia a atitude de Pedro era vista como uma afronta contra os fundamentos da vida russa. Houve aqueles que ao perder a barba cometeram suicídio. Em várias culturas, inclusive na Rússia daquela época, raspar a barba era

Caricatura "Barbeiro quer cortar barba do rebelde" Lubok, 1770

Caricatura “Barbeiro quer cortar barba do rebelde” Lubok, 1770

considerado um pecado. Os sacerdotes recusavam a abençoar homens imberbes. Vale lembrar também que o imposto sobre barbas não foi invenção de Pedro. Por exemplo, no século XVI o rei da Inglaterra Henrique VIII e sua filha rainha Isabel I, também haviam implantado esse imposto.
A nova moda não pegava facilmente. Por isso, no dia 5 de setembro de 1698, Pedro I instituiu o imposto sobre barbas, a fim de ensinar seus súditos a moda e a aparência adotadas na Europa.
Foi criado um distintivo metálico especial, “a ficha da barba” que representava uma espécie de recibo pelo pagamento do imposto que permitia o uso da barba. Lentamente, até o fim daquele ano, a exigência de raspar a barba começou a ficar mais difundida entre os principais grupos da população urbana.
De acordo com o decreto de 1705, toda a população masculina exceto sacerdotes, monges e camponeses deveriam raspar a barba e os bigodes. Foi determinado o valor da multa para aqueles que não cumpriam a ordem. A multa dos aristocratas era 600 rublos por ano (uma quantia enorme); os comerciantes deveriam pagar 100 rublos; e os moradores comuns de Moscou, 30 rublos. Os camponeses, embora isentos do imposto, deveriam pagar 1 centavo cada vez que entravam da cidade. Por fim, o imposto sobre as barbas foi abolido em 1772.

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Anastassia Bytsenko
Anastassia Bytsenko

Professora do Clube Eslavo. Concluiu pós-graduação no Departamento de Literatura e Cultura Russa da Universidade de São Paulo. Defendeu a tese de doutorado “Lev Tolstói e o Teatro: Texto e Contexto de O Cadáver Vivo” na mesma universidade. Ministra aulas de língua e literatura russa, oferece vários cursos e palestras. Realizou traduções de obras de literatura e ensaística da língua russa para o português (por exemplo: FLORIÉNSKI, P. A Perspectiva Inversa. Editora 34, 2012; TARKÓVSKI, A.A. O Sacrifício. É Realizações, 2012; TOLSTÓI, L.N. Sobre Shakespeare e o teatro. Companhia das Letras, 2011; ZINGUERMAN, B. As Inestimáveis lições de Stanislávski; In: TEATRO RUSSO: Literatura e Espetáculo. Ateliê Editorial, 2011, etc.)

  • Alexandre

    Eu faria uma depilação a lazer para não pagar o imposto. 🙂